Quando Shara acordou já era fim da tarde. Dormira muito devido ao cansaço que sentia, pela falta de sono na noite anterior e por ter andando de um lado para o outro com os seus, agora amigos, enquanto visitava o castelo.
Sentou-se na cama notando que havia sido tapada com um lençol laranja, que costumava estar ao fundo da cama. Colocou a mão numa das pontas, sentindo-a gelada e com umas pequenitas marcas de dentes. Olhou para a almofada e viu a raposa de cristal que Jack lhe tinha oferecido.
- Que estranho. Pensava que te tinha colocado em cima da secretária. Devia mesmo estar cansada para não me lembrar disso.
Levantou-se, colocou a raposa em cima da secretária e espreitou pela janela grande que ficava ao lado da cama. Observou o pôr-do-sol, que preenchia o céu azul com tons laranjas, vermelhos e amarelos, como se fossem tintas espalhadas por um pincel na tela gigante do céu.
Do seu quarto podia ver as traseiras do castelo, decoradas com um pátio verde e colorido com flores, que rodeavam um pequeno coreto branco. Ao lado desta havia uma pequena fonte, com uma escultura de três senhoras, estando as das pontas sentadas em cima de algo parecido com rochas. “Não me lembro de ter visto aquilo”pensava Shara olhando para a estátua sem conseguir desviar os olhos. Era como se aquelas senhoras a chamassem, sem, no entanto fazerem qualquer ruído.
Shara ouviu alguém bater à porta e de seguida entrar, sem que ela tivesse tempo de a abrir.
- Oi Shara, dormiste bem? – perguntava Jack animado, correndo para lhe dar um abraço.
- Jack, não podes entrar assim no quarto… – ralhava Erik, que vinha atrás dele.
- Porque não. Tu disseste que podia quando ela acordasse. E ela já esta acordada, vês – dizia deitando-lhe a língua de fora.
- Mas não podes entrar assim no quarto das pessoas, tens de esperar que elas primeiro te abram a porta.
- Mas a Shara não se importa. Pois não? – Mostrou-lhe um sorriso, daqueles que as crianças fazem, que nos impedem de dizer não. E para ela era muito difícil resistir àqueles tipos de sorrisos. Há anos que tentava não ceder quando os miúdos do infantário o faziam, mas ainda não obtiver resultados.
- Claro que podes entrar sempre que quiseres. Estavas à espera que eu acordasse? – perguntou fazendo-lhe festas por detrás das orelhas. “Ah, ele é tão fofo”, pensava.
- Sim. Eu queria vir acordar-te mais cedo, para poderes almoçar connosco, mas o Erik disse que era melhor deixar-te dormir. E por isso obrigou-me a estar no quarto dele a jogar videojogos – disse fazendo uma careta, como se para uma criança jogar videojogos fosse algo de mal e extremamente horroroso.
- Mas tu estavas a gostar. Conseguiste ganhar-me em todos – contrapôs Erik.
- Pois claro. As crianças percebem muito mais de jogos que vocês! Vocês nesse aspecto são uns autênticos nabos.
Shara ria enquanto via os dois a discutirem sobre o facto de as crianças serem mais inteligentes nos jogos, ou não.
- Pronto, pronto. Já chega – disse dando festinhas atrás das orelhas a cada um. Jack ficou muito contente com aquele gesto, enquanto Erik parecia ter ficado um pouco envergonhado, baixando as orelhas e tapando a boca com o punho, como os gatos fazem.
- Shara queres jogar comigo? Eu prometo que jogo mais devagar para poderes perceber bem o jogo.
- Claro que sim – dizia com um sorriso. – Obrigada por me teres deixado descansar, soube-me mesmo bem. Pelos visto estava mesmo a precisar – agradeceu a Erik enquanto saia do seu quarto e caminhava para o dele.
O quarto do amigo era igualzinho ao dela, com a diferença, de possuir tons mais acastanhados e escuros, e de haver muitos mais livros nas suas prateleiras. Havia tantos livros que ela se questionou como é que aqueles suportes, aparentemente tão frágeis, conseguiam aguentar todo aquele peso. Havia livros de toda a espécie e feitio. Desde livros de história, a de artes plásticas, de engenheira a culinária, de ciências a livros de anedotas, entre muitos outros.
Sentaram-se em cima da cama, e com os olhos postos no ecrã de televisão, começaram a jogar.
Olharam para o relógio prateado de números vermelhos, em cima da secretária de Erik e viram que já era horas de jantar. Desceram as escadas encontrando Flora e Aqua pelo caminho.
- Estávamos a ver que tínhamos de vos puxar por uma orelha para descerem. Não sabem que é crime deixar pessoas com fome à espera?! – ralhava Flora com a sua voz fina, mas brincalhona como sempre.
- Desculpa, estávamos no meio de uma descoberta.
- E qual era?
- Descobrimos que o Erik consegue ser mais lento que um caracol. Ele não percebe nada de jogos – disse Jack com um ar muito sério, desmanchando-se a rir de seguida. Fazendo com que Erik lhe desse um ataque de cócegas como castigo.
Saíram do dormitório em direcção ao refeitório do andar de cima, deparando-se com outros seres para além dos do dia. As criaturas da noite, haviam-se levantado e caminhavam também para o refeitório para jantarem, aparentemente mais cedo que o costume.
Shara encolheu-se um pouco, num acto quase involuntário, ao ver aqueles seres novamente.
- Tem calma! Não vai acontecer-te nada. Eu prometi-te não foi? – disse Erik ao seu lado, colocando-lhe uma mão em cima do ombro, acalmando-a.
- Obrigada Erik.
Entraram no refeitório, pegaram nos pratos com bitoque e, dirigiam-se para a mesma zona onde haviam tomado o pequeno-almoço. Shara ficou de costas para a mesa dos seres da noite, tendo Erik de um lado e Jack do outro.
Começaram a comer normalmente, conversando e rindo como de manhã, até que Erik virou as orelhas para trás, captando algum som e a sua expressão ficou terrivelmente séria.
- Que irritante – Disse entre dentes.
- Erik? O que… - Começou Shara a dizer, mas fora interrompido.
- Então como estão os meus bichinhos da luz preferidos hoje? – perguntava uma pessoa atrás dela. Não precisou de se virar para saber quem era, a voz rouca, o sotaque, a forma como carregava nos “r”, foram as única coisa de que necessitou para o reconhecer.
- O que queres Matt? – perguntou Erik olhando-o com desprezo.
- Nada de especial. Vim apenas cumprimentar os meus bichos desprezíveis preferidos – respondeu com um sorriso sarcástico. – E esta? – disse pegando no ombro de Shara com a sua mão mais gelada que o próprio gelo, virando-a.
- Olha é a miúda de ontem – disse o rapazito com a asas na cabeça.
- Pois é! Realmente está diferente hoje! – dizia um outro de cabelo vermelho, donde saiam dois pequenos chifres da testa.
Shara reconheceu-os à primeira. Era os que estava junto ao loiro na noite anterior. Mas não era para eles que focava a sua atenção, era no próprio loiro que continuava a mira-la.
- Hoje estás muito mais bem vestida. E com esse pescoço à mostra, ainda melhor. Torna mais fácil cravar os dentes – dizia mostrando os pequenos caninos pontiagudos. Shara arrepiou-se e o medo começou a apoderar-se dela.
- Deixa-a em paz! – Erik levantou-se e agarrou no braço de Matt, que ainda segurava o ombro da rapariga.
- Não me toques – disse Matt retirando o braço, soltando uma pequena chama na mão de Erik, que o largou rapidamente. – Tens sorte gatinho. Hoje só vim cumprimentar a novata, e por isso não tenho qualquer intenção de criar um conflito – virou as costas, sentando-se mesmo atrás deles juntamente com os outros.
-Estás bem? – perguntava Erik a Shara, esfregando-lhe o ombro carinhosamente.
- Sim…Estou… É só que… Erik olha a tua mão! – disse prestando atenção à mão vermelha do amigo. Colocou as suas por cima da mão esquerda dele. Sentindo-a a ferver em comparação com as suas mãos frias. – Devias por um pouco de água nisso.
- Não é preciso, não foi nada de grave, foi só um raspão, nada de mais.
- Aquele Matt devia ter levado uma resposta por isso! – dizia Michel zangado.
- Não podemos fazer isso! Assim tornávamo-nos como eles, que só utilizam os seus poderes para magoar os outros - disse Erik.
- Mas mesmo assim tiveste sorte, por ele só ter usado o elementar. Se tivesse usado o seu poder secundário, terias ficado bem pior – dizia Flora continuando a comer.
- Mas que são eles? – perguntou Shara, ainda a segurar na mão do amigo, que aos poucos ia deixando de estar tão quente.
- O loiro é o Matt Night, delegado dos seres da noite, e o único vampiro da escola. Possuiu o fogo, como poder elementar e tem um poder secundário bastante horroroso. Consegue torturar as pessoas só com o olhar, mas os professores só permitem que ele o utilize durante as aulas de poderes secundários, e mesmo assim é bastante controlado.
- Sim, porque essa capacidade é muito perigosa para aqueles que o rodeiam. Uma vez, ele irritou-se com um dos alunos do dia, e utilizou esse poder, de tal forma que acabou por matar o rapaz.
Os pêlos da nuca de Shara eriçaram-se e teve um arrepio, imaginando como o coitado devia ter sofrido.
- Os outros dois são o Kai e o Lex, e estão sempre com ele. O mais baixinho, com as asas é o Kai, tendo capacidade sobre o vento e a invisibilidade. O outro de cabelo vermelho comprido é o Lex, que também tem poderes sobre o fogo, tendo como poder secundário a velocidade.
- São criaturas com as quais não te deves meter Shara! – aconselhava Aqua.
- Mas infelizmente ela já se meteu – dizia Hiro olhando para os alunos da outra mesa, em especial aqueles três. – Eles acham que ela tem um cheiro diferente de nós. Alguns perguntam se o seu sangue será tão diferente e saboroso quanto o seu cheiro. Pelo menos… é o que o Matt pensa, apesar de o tentar esconder.
- Que bom, ainda agora comecei as aulas e já me fiz, do género “inimiga”, do pior da escola.
Terminaram a refeição calmamente, dirigindo-se depois ao dormitório.
Quando lá chegaram Jack já ia quase a dormir em pé, tendo de ser Hiro a levá-lo para o seu quarto. Flora, Aqua e Michel despediram-se dos amigos, e dirigiram-se para os seus respectivos quartos nas torres. Shara e Erik subiram a escadaria encaracolada de pedra, dirigindo-se também aos seus.
Shara abriu a porta, deparando-se com uma serie de caixas de roupa, sapatos e alguns acessórios, que estavam colocados em cima da cama, cadeira e da cama.
- O que é isto? – perguntou olhando para todas aquelas caixas, da entrada da porta.
- Isso são as tuas novas roupas. Disseste que a Flora e a Aqua podiam fazer as compras por ti, e aparentemente fizeram-no tal como pediste – respondeu Erik, espreitando por cima da sua cabeça. A loira era pequena comparada com o rapaz, dando-lhe mais ou menos pelo meio peito.
Abriu algumas caixas de roupa, vendo o mesmo fato com que trajava, só que noutros tons, como rosa, laranja, azul, branco e preto, entre muitas e diversas outras cores.
- Os fatos são quase todos iguais!
- Isso é porque o que vestes no primeiro dia, será como uma farda, que podes usar noutros tons, mas que será sempre o mesmo modelo para as aulas – Respondeu Erik.
- Bem… isso facilita na escolha da roupa de manhã.
Não precisou de abrir as outras caixas de sapatos para saber que eram botas iguais às suas, só que noutras cores. Olhou para todas as outras caixas, ainda por abrir, e deparou-se com uma que lhe chamou a atenção. Era uma uma caixa prateada envolta com um laço preto, que possuía um cartão que dizia “Só podes abrir quando nós dissermos!”, escrito numa caligrafia trabalhada.
- Ao que parece elas compraram-te uma prenda, mas pelo que diz aí não a podes abrir! E aconselho-te a não o fazeres, porque se não vais ter de aturar a resmunguice delas – dizia sorrindo.
- Pois, se calhar é melhor esperar até ter a permissão das minhas orientadoras de roupas – Disse rindo, arrumando algumas das roupas nos cabides do guarda-fato. Amontoou algumas caixas, umas em cima das outras no chão do armário e as restantes, na casa de banho.
- Pronto, já desempacotei as prendas todas. Pelo menos uma grande parte olhou feliz para a sua cama, agora livre de qualquer caixa.
- Achas que ainda tens tempo para mais uma? – disse Erik, entregando-lhe uma pequena caixa redonda cor-de-rosa clara, com um laço prateado. – Isto é para ti! Afinal de contas hoje é Natal na Holanda.
Shara olhou para a pequena caixa, tirando primeiro o laço com muito cuidado.
- Pareces mesmo uma criança, até tiras os laços primeiro e tudo.
- Aí é que está a piada de abrir uma prenda – disse sorrindo e começando a rasgar o papel de embrulho. Assim que o abriu, viu uma pequena caixa de música cor de pérola redonda, com um lírio laranja a decorar-lhe a tampa.
Abriu a caixa, vendo uma pequena máquina que tocava as notas enquanto estas iam passando. Reconheceu a música de imediato, após ouvir os seus primeiros tilintares. Era “What Beautiful Stars” de Yiruma, uma das suas músicas preferidas.
Shara ficou a olhar para a caixa, vendo as notas a circularem na pequena máquina.
- Como sabias que eu gostava desta música? Também vinha naqueles apontamentos sobre mim? – perguntou a Erik, sem desviar o olhar da caixa de musica.
- Eh… Sim…
- Obrigada. Gostei muito – disse olhando para ele, com um grande sorriso.
- Ainda bem que gostaste – retribuiu-lhe o seu sorriso. – ah… antes que me esqueça. Estes são os teus novos livros da escola, e este era o saco que trazias quando vinhas para cá – disse apontando para os livros que estavam em cima da secretária e colocando o saco de ginástica azul ao seu lado.
- Tiveste sorte por teres isso contigo, quando o professor te trouxe para cá. Senão tinha-lo perdido, tal como todas as outras coisas que tiveste na Terra.
Shara olhou para o saco, sem se mexer. Já não valia a pena ter aquilo, pois só riria causar-lhe mais saudades de tudo aquilo que amara e que agora tinha perdido.
Erik viu que ela estava a ficar um pouco triste, envolta nas suas recordações e achou que seria melhor ir embora, para a deixar descansar.
Estava a sair pela porta quando a ouviu chamar.
- Neko!
Olhou para trás, admirado e com um certo receio.
- Ainda bem que te tinha colocado dentro do saco de desporto. Assim não te perdi. Eu sabia que tinha uma razão para o fazer – agarrou-se ao gato de peluche, como se fosse um antigo amigo que há muito não via.
Erik ficou mais assustado quando o viu, aquele gato preto com duas asas de anjo nas costas, preso entre os braços suaves da loira. “Respira Erik. Aquilo não quer dizer nada. Vá respira”, dizia para si mesmo.
- O que é isso?
- Este é o Neko! – disse levantando a cabeça e mostrando o animal ao amigo.
- Neko?Que npme mais estranho!
- Não é não. Foi o nome que dei ao meu melhor amigo. Foi ele quem mo deu e por isso dei-lhe o mesmo nome que a ele.
“Ai céu. Será?”
- E tu lembras-te dele?
- Mais ou menos. As memórias que tenho dele estão um pouco nebulosas, e por isso não me consigo lembrar das suas feições como deve ser. Elas não passam de algo desfocado, que por mais que tente não consigo focar bem – disse triste, olhando para o seu gato.
- Devias ser muito pequena na altura. E por isso é que já não te lembras. Mas não te esforces a tentar lembrar-te dele. Porque isso só te poderá fazer-te ficar mais triste, ou até mesmo… assustada. – terminou num memuriu.
- Mas porqu… - Shara não conseguiu terminar a frase. Sentiu-se a ficar muito cansada de repente, e a imagem de Erik começou a ficar destorcida, até que os seus olhos foram inundados pelas sombras do sono.
Erik pegou nela e colocou-a em cima da cama, tapando-a com o cobertor laranja às flores. Olhou para o gato caído no chão e colocou-o ao seu lado.
- Tu não eras suposto lembras-te dele – disse num murmúrio, olhando para ela. – Desculpa – e saiu, fechando a porta atrás de si.
Shara correu para a mesa de jardim, pegando nos lápis de cor e, começou a desenhar com a mão direita. No entanto foi interrompida por sua avó que a olhava de uma forma abatida. Imanando uma grande tristeza que tentava esconder nos seus olhos cor de mel.
- Shara, não voltes a escrever ou a desenhar com a mão direita, está bem querida! Promete-me que não o voltas a fazer. Pelo menos… não agora. Ainda não estás pronta. Prometes isso à avó? – pediu a senhora com uma voz cansada da idade, mas num tom calmo e meigo.
A imagem foi afastada, e Shara sentiu-se a crescer, deixando os seus 5 anos para trás, voltando à idade actual.
Abriu os olhos quando alguém lhe bateu à porta, levantando-se rapidamente para a abrir.
- Bom dia Shara. Estás pronta para o teu primeiro dia de aulas? – perguntava Aqua, com aquela alegria contagiante.
- A mesma roupa de ontem? Não pode ser, temos de mudar de tom hoje! – disse Flora entrando, passando por Shara, dirigindo-se ao seu guarda-fato e abri-o.
A rapariga sentia-se tão cansada que concluirá que se tinha deitado com a roupa que tinha vestida. “Será que ainda não me habituei a este mundo? Claro que não, tonta. Afinal estás cá há quanto tempo?”
Aqua tirou um fato laranja do armário. – Hoje vestes este tom. É animado e bom para começar um novo dia.
- Vocês lá sabem. Afinal são as minhas orientadoras de moda e, por isso confio em vocês – pegou nas roupas e dirigiu-se para a casa de banho, mudando para o fato laranja que Aqua havia escolhido. Lavou a cara e prendendo os cabelos num laço laranja, tal como tinha no dia anterior.
- A Shara já acordou? – ouviu uma voz de criança a perguntar.
Saiu da casa de banho, encontrando Jack à porta do quarto.
- Shara… Bom dia – disse Jack com um enorme sorriso matinal.
- Bom dia Jack – disse Shara retribuindo o sorriso.
Desceram as escadas, ouvindo Jack reclamar com Aqua e Flora, por terem sido elas a acordarem-na em vez dele, fazendo beicinho de vez em quando, que fez com que todas se rissem.
Erik sentou-se à sua frente, para grande surpresa dos rapazes. Hiro ergueu as orelhas, rodando-as ligeiramente para o lado, como se estivesse a ouvir o que Erik estava a pensar, e suspiro.
Erik manteve-se calado durante toda a refeição, de orelhas descaídas e a olhar sempre para baixo, enquanto os outros falavam animadamente, explicando a Shara tudo sobre as aulas. Ficou a saber que todas as aulas eram dadas pela professora Angelique, à excepção das aulas de poderes elementares, dadas pelos respectivos professores de cada elemento.
- Erik? Erik estás bem?
O rapaz olhou-a meio atordoado – Ah… sim?
- Estás bem? Tiveste calado a refeição toda.
- Estava a pensar. A divagar, mas sim. Estou bem! – sorriu-lhe, de uma certa forma contente por ela não se ter apercebido de que tinha sido ela que a fizera ficar cansada.
Quando chegaram à sala viram a professora Angelique a projectar uma pintura de uma paisagem duma casa no campo, no quadro.
- Bom dia professora – Disseram todos em coro.
- Muitos bons dias, meus caríssimos alunos – Respondeu com um sorriso, que fazia realçar a sua beleza estonteante. A professora mais parecia aquela retratos de anjos, em que quanto mais se olhasse, mas enfeitiçados com a sua beleza ficávamos. Também não era para menos. A professora Angelique era um anjo.
Subiram alguns degraus e sentaram-se nos bancos compridos, colocando as folhas brancas e os lápis de cor, em cima da mesa. Lápis de cor era o material de desenho que Shara estava habituada a usar, quer nas aulas da escola de arte, em que estudara, quer nos trabalhos que fazia em casa. Para ela não havia melhor amigo de um artista que os seus maravilhosos lápis de cor.
Esperaram que todos chegassem para que pudessem começar a aula.
- Hoje vamos trabalhar a imaginação do que vêem, a partir da imagem do quadro. E como se exprimem, ao desenhá-la com as duas mãos – disse explicando aos alunos o que podiam fazer, bem como o podiam fazer e qual o objectivo do trabalho.
Todos observaram a paisagem campestre que projectada e começaram a trabalhar nas suas obras. Estavam muito animados a desenhando e a pintando aquilo que os seus olhos captavam da paisagem. Moldando-o a seu gosto.
Hiro e Michel concentravam-se a desenhar casas mais modernas, enquanto Aqua e Flora se concentravam em representar pequenos rios ou trepadeiras coloridas que preenchiam os arredores das casas. Jack desenhava algumas crianças a brincarem com um pequeno cão castanho, ao passo que Erik pintava pessoas a trabalharem nos campos de trigo. Era incrível a forma como desenhavam, uns de uma maneira e outros de outra, mas os resultados estavam a ser incríveis.
Enquanto todos se concentravam no que estava a acontecer, ou no que poderia acontecer na paisagem, Shara concentrava-se no passado da mesma. Desenhando o campo com pequenas e grandes plantas, bem como animais no seu estado selvagem. Cobrindo a sua obra com tons verdes, castanhos e coloridos, demonstrando aquilo em tempos podia ter sido.
- Oh, Kawaii – ouviu Jack dizer.
- E… pintaste tudo com a mão esquerda – disse Aqua, vendo Shara a dar os retoques finais.
- Mas tu comes com a mão direita! És algum tipo de pseudo-canhota?
- Foi! Sou um pouco, sim – disse Shara, observando a sua obra acabada. Avistou uma borracha a vir na sua direcção e apanhou-a quase que automaticamente e sem se aperceber.
- As tuas reacções estão também na direita! – disse Hiro, avistando a borracha que havia-lhe atirado na mão da loira.
- É algo deveras interessante – disse a professora aproximando-se e observando o desenho de Shara. – Se com a mão esquerda fazes isto, e se as tua reacções estão na outra. Mal posso esperar pela obra que irás fazer com a mão direita.
- Mas eu não posso! – respondeu rapidamente e com um ar nervoso.
- Claro que podes querida! Não precisas de ficar preocupada com o que poderá sair. Todos vão tentar, por isso não fiques preocupada – dizia a professora carinhosamente.
- Não é isso, é que… que eu não posso desenhar nem escrever com a mão direita.
- Hei, calma. Mas porque não? – perguntou Erik admirado e preocupado ao sentir a inquietação da amiga.
- É que a minha avó pediu-me para não o fazer – recordou-se do estranho sonho que tivera nessa noite.
- E porque dizia isso?
- É porque… ah… não sei. Não… não me lembro.
A professora permaneceu calada, pensando no que a rapariga acabara de dizer, como se isso tivesse uma grande importância.
- Mas experimenta – acabou por dizer, entregando-lhe outra folha branca.
Shara olhou para a professora durante um bocado, virando a sua atenção para o papel branco que estava à sua frente. “Porque me disseste aquilo avó” questionava Shara para si mesma, “De qualquer maneira, já não vale a pena pensar nisso, tu já não te lembras mais de mim”.
Pegou nos lápis de cor e começou a desenhar, pintando com vermelho, preto, cinzento e castanho velho, manobrando a sua mão que obedecia sem qualquer dificuldade, como se ela sempre fosse destra a desenhar.
- Shara! – ouviu Aqua dizer.
Levantou os olhos e reparou que todos os seus amigos olhavam para o seu desenho com ares assustados.
Pela primeira vez olhou realmente para aquilo que havia feito, ficando assustada tal como os outros, com aquilo que estava a ver.
O desenho mostrava a casa e o campo representados no quadro, mas muito mais obscuro e sombrio. Mostrava a casa destruída e a arder, tal como as plantas que a rodeavam, absorvidas pelas chamas negras. Ao pé da casa podia ver-se algumas pessoas caídas no chão, cobertas de cinzas e com algumas facas e lanças que transpassavam o seus corpos inanimados. A sua obra emanava uma ora obscura e negra, contrariando a dos outros quadros feitos pelos alunos do dia.
- Shara porque fizeste algo assim tão… tão…. – perguntava Flora sem conseguir descrever aquele desenho frio e sombrio.
- Eu não sei… saiu-me… não sei porquê…ah…. – Shara estava confusa e assustada com o que ela própria havia feito.
- Vá lá malta. Ela já se sente mal o suficiente, não a façam sentir mais – dizia Erik virando o desenho dela ao contrário para que mais ninguém o visse.
- O Erik tem razão meninos. Shara não te preocupes mais com isto está bem – disse a professora reconfortando-a. – Muito bem, visto que a maioria já acabou os trabalhos, dou a aula de arte por terminada. Vemo-nos depois do intervalo.
Shara sentia-se um pouco mal pelo trabalho que havia feito logo no seu primeiro dia de aulas, e todos tentaram animá-la.
- Não te preocupes mais com isso Shara. Aquilo podia ser devido à grande mudança, pela qual estás a passar - dizia Aqua carinhosamente.
- Sim, não penses mais no assunto – aconselhou Flora.
- Mas vocês viram aquilo. Era horrível. Não é normal para um... um ser do dia – Respondeu abatida.
- Deixa estar. Eu continuo a gostar muito de ti Shara – dizia Jack com um grande sorriso, abraçando-a.
- Obrigada – disse também sorrindo.
A professora colocou os desenho um ao lado do outro e avaliou-os.
- Agora entendo porque é que não querias que ela desenvolvesse a mão direita, Sofia. Tinhas receio?
- Os seus poderes desenvolveram-se muito antes do tempo. Ela não estava preparada, e nós também não! – uma senhora de cabelos grisalhos atado numa pequena trança, que lhe repousava por cima do ombro. Vestida com um vestido azul-escuro comprido e com um pequeno bolso a meio, colocou-se ao lado da professora.
- E agora? Achas que já está pronta?
- Se ela está aqui, então é porque está! A questão é: será que ela está preparada para enfrentar o que despertou? E nós? Será que estamos?
- Só o tempo é que poderá responder a essas perguntas, minha velha amiga. Só o tempo – murmurava a professora, enquanto as duas observavam a rapariga pela janela.
Após os quinze minutos de intervalo voltaram para a sala de aulas, iniciando a sua aula de magia espiritual, como estava estipulado no horário. Quando lá chegaram, viram uma serie de bolas de cristal espalhadas por cima das mesas.
- Que bom. Hoje é aula de concentração de energia – dizia Aqua feliz sentando-se no mesmo lugar de antes.
- Aula de quê? – Perguntava Shara, olhando para a bola de cristal transparente, pousada em cima de um pano bourdeaux, à sua frente.
- Aula de concentração de energia espiritual. Serve para nos ajudar a concentrarmos a nossa energia interior, para o exterior – explicava a professora. – Todos nós temos energia que guardamos no nosso interior, sendo difícil envia-la para o exterior sem ser a partir dos nossos poderes elementares ou secundários. Essa energia permite-nos fortalecer os nossos poderes, como também nos possibilita curar mais depressa. Por isso é que a desenvolvemos, pois é algo que pode ser bastante útil no futuro!
Shara ouvia a explicação com muita atenção enquanto via todos à sua volta a colocarem as mãos por cima da esfera e concentrarem-se nela, fechando os olhos.
- Para podermos enviar essa energia para o exterior, temos de a procurar primeiro no nosso interior, e depois focá-la em algo. Neste caso todos estão a tentar focá-la nas bolas de cristal à sua frente – explicou a professora vendo Shara um pouco atrapalhada. – Colocas as mãos por cima da esfera, e fechas os olhos, procurando a tua energia interior.
“Claro, para nos concentrarmos em algo temos de fechar os olhos. Que típico”
Fez tal como a professora disse. Fechou os olhos e tentou concentrar-se em algo que nem ela própria sabia ao certo o que era. No inicio não viu nada para alem da escuridão, mas aos poucos essa escuridão foi-se fundindo com a luz que começou a aparecer à sua frente. Era uma sensação estranha, ver aquela mancha de luz e de escuridão que aos poucos se ia juntando, e contornando, mentalmente, o seu corpo. Sendo a parte esquerda contornada pela luz e, a parte direita pela escuridão, unindo-se a meio.
Abriu os olhos e olhou para a bola de cristal, mas esta não mudara ao contrário das outras que imanavam uma luz branca. Olhou com mais atenção e viu que no centro desta havia uma pequena luz branca com alguns traços pretos, que parecia querer aumentar, mas que não conseguiam.
- Shara concentra-te só na luz, não penses na outra. Pensa só na luz – disse a professora mostrando um sorriso caloroso e compreensivo.
Shara assim o fez, voltou a fechar os olhos e concentrou-se apenas na luz. “só na luz, só na luz!”. À medida que se ia concentrando, a luz começou a alastrar-se para o lado direito, afastando a escuridão que aos poucos foi sumindo, absorvida por aquela luz clara. Abriu os olhos e viu a sua bola de cristal a ganhar um tom branco, onde algo parecido com faíscas, imanavam no centro.
Shara mostrou um grande sorriso, olhando depois para a professora que acenou com a cabeça em aprovação. Estava feliz por ter conseguido concentrar a sua força interior na pequena esfera, o que já não era mau para alguém sem poderes, como ela pensava.
A aula de história e de poderes secundários correu normalmente, segundo o que os outros diziam. Na aula de história falaram sobre o equilíbrio entre os sete elementos: luz, escuridão, água, fogo, terra, ar e metal. Já na aula de poderes secundários haviam praticado com os seus poderes, enquanto Shara, como ainda não tinha descoberto qual era o seu, ficou a olhar ou a ajudar os outros com os deles.
Flora começou a falar com os pássaros que havia chamado da janela, Michel levitava objectos que estavam em cima da secretária da professora, e Jack divertia-se a transformar-se num animal que Hiro lia na mente de Shara. Aqua entretia-se a metamorfosear-se nos diversos alunos à medida que passava por eles, enquanto Erik tentava acalmar alguém que se assustasse com aquilo.
Shara gostou de ver os outros a usarem os seus dons de uma forma divertida, que preenchia a grande sala de aula com uma enorme alegria. Contudo sentia-se um pouco triste por não poder juntar-se a eles.
- Não te preocupes, eles irão revelar-se no momento certo, só tens e esperar com paciência – disse a professora amavelmente, como se tivesse percebido como ela se sentia.
Após esta aula foram almoçar, caminhando alegremente, até se depararem com um grupo desagradável que lhes atravessou o caminho.
- Olha quem são eles, os meus animais de estimação preferidos. Como estão hoje? – Matt olhava-os com um ar superior, mostrando um sorriso sarcástico. – E tu novata, continuas com medo de nós. Estou a ver pelo teu ar, que sim. Isso é bom, significa que sabes quem manda – disse olhando para Shara.
- Deixa-a em paz – Disse Jack um pouco a medo, mas a esforçar-se para se fazer de forte.
Matt olhou para o rapazito que segurava no braço de Shara, demonstrando um ar irritado, como se Jack tivesse feito algo de errado.
- Não devias responder assim às pessoas, puto. Olha que te podes arrepender – virou as costas e entrou no refeitório com a sua manada atrás.
Eles entraram também, pegando no prato de bifinhos com cogumelos e batatas fritas, e sentaram-se no lugar de costume, com o grupo de Matt atrás deles. Shara ficou, infelizmente de frente para eles, avistando Matt, que de vez em quando a observava com um olhar esquisito. “O que é que eu fiz desta vez?”, pensou ela, vendo-o olhar daquela maneira.
- Não fizeste nada. Ele é que é um chato, melga, parvo, malvado, ao qual não deves dar qualquer importância – disse Hiro muito calmamente à sua frente.
- Hiro, podes fazer-me um grande, gigante favor? – Começou a dizer com um ar inocente – podes parar de ler a minha mente – acabou com um ar meio sério.
- Desculpa, mas eu não tenho culpa de não querer evitar ouvir a tua mente… ou a do Erik neste momento – disse rindo
Erik olhou-o como se o repreendesse, mas isso só fez com que ele se risse ainda mais.
Shara olhou para Erik, a seu lado, vendo-o olhar com um ar meio zangado para Matt, mas preferiu não dar grande importância a isso, e continuou a comer normalmente.
- Shara o que vais fazer a seguir? – perguntou Jack, quebrando com a risada de Hiro.
- Porque perguntas?
- É que a seguir é a aula de poderes elementares… e, tu ainda não sabes qual é o teu – disse Flora.
- Não sei, ainda não tinha pensado nisso.
- Porque não vais à biblioteca, tens lá bastantes livros interessantes, e de fantasias Terrestres, para leres – aconselhou Michel
- Vocês têm uma biblioteca? Porque não me disseram antes? – perguntou animada com a ideia da biblioteca e dos livros de fantasia.
- Nós dissemos - disseram a Flora e a Aqua ao mesmo tempo.
- Não disseram não – responderam Shara e Jack em coro.
- Prontos se calhar não dissemos. Mas não sabíamos que era um assunto importante. Quer dizer quem é que dá importância a uma biblioteca, cheia de livros velhos em cima de prateleiras cobertas com pó? – tentou defender Flora.
Shara, Michel e Erik levantaram os braços, em sinal de que, eles davam importância a livros velhos em cima de prateleiras cobertas com pó.
- Pronto, desculpem – disse fazendo beicinho.
- Eu perdoou-vos, mas com uma condição. Onde fica a biblioteca? – perguntou com um sorriso e um brilho nos olhos.
- Fica ao fundo do corredor. O que faz a divisão entre a sala dos alunos do dia e a sala dos alunos da noite.
- Ok, estão perdoadas - disse com um grande sorriso de criança e continuou a comer.
Depois de se ter despedido dos amigos dirigiu-se para a biblioteca, percorrendo o corredor que se separava em dois, onde as salas dos alunos do dia e da noite se situavam em cantos postos, claro. Ao fundo encontrava-se uma grande porta de madeira que conseguia ter um ar mais antigo que o resto do castelo.
Abriu-a e avistou duas, três, quatro, diversas grandes extensões de corredores, compostos por fileiras mais pequenas que se encontravam no meio das diversas estantes castanhas escuras, repletas de livros coloridos. Entrou e viu que à sua frente se encontrava um acanhado balcão branco onde uma pequena ninfa trabalhava ao computador. Quando a porta se fechou atrás de si a senhora, que mais parecia uma criança pequena, a olhou mostrando um sorriso típico de ninfa. Esbelto e meigo, mas com uma certa travessura nos cantos da boca. Dirigiu-se para ela, batendo as suas pequenas asas de borboleta roxas, que condiziam com o seu curto vestido.
- Boa tarde. Em que posso ajudá-la – perguntou amavelmente.
- Boa tarde. Eu procuro um livro, que me pudesse explicar os poderes que temos – disse depois de ter pensado um pouco no livro que pretendia.
- Muito bem, tem alguma preferência por algum poder específico? – perguntou voando em direcção a uma estante onde estava escrito “Poderes e Magia”, em letras douradas de lado.
- Não, estou apenas curiosa sobre o assunto – respondeu seguindo-a.
- Mas não procura algo sobre o seu poder?
- É que… eu ainda não sei qual é o meu poder.
- Então posso sugerir este livro – disse entregando-lhe um livro cinzento que dizia “Poderes em iniciação”, com letras prateadas.
- Sim, é mesmo este de que eu preciso. Onde posso lê-lo? – perguntou olhando em volta. Avistou algumas cadeiras que se encontravam ao pé dos computadores, juntamente com uns quantos sofás preto que repousavam ao lado de certas estantes.
- Pode lê-lo onde quiser menina. Pode lê-lo aqui, como o pode levar para outro sítio à sua escolha – disse a ninfa, voltando para o seu balcão.
- E tenho de assinar alguma coisa, em como tenho o livro, ou…
- Claro que não! Isso é muito à Terrestre. Quando o acabar de ler é só entregar. Até lá pode levar o tempo que precisar – explicava a ninfa com uma voz doce e amável.
- Muito obrigada. Acho que já sei o sítio ideal para o ler – agradeceu e saio da biblioteca.
Desceu a grande escadaria, até ao pátio de baixo, virando na primeira porta, ou o buraco que restava dela, dirigindo-se para as traseiras do castelo.
O banco do coreto onde se sentara era branco e arredondado, decorado com algumas paisagens de céu no tecto, parecendo haver um buraco no mesmo, donde se podia ver o céu incrivelmente limpo.
Cruzou as pernas em cima do banco arredondado, colocou o livro em cima das mesmas e abriu-o.
O livro possuía páginas leves e brancas, preenchidas com letras pretas, verdes, vermelhas, azuis, cinzentas claras ou escuras, e amarelas, que demonstravam os textos, títulos e alguns desenhos.
A primeira página estava preenchida com algumas árvores genealógica de poderes, onde explicava que cada poder provem dos poderes dos seus antepassados. Mostrando como dois poderes diferentes podem dar origem a outros, como se fossem cores que ao serem misturadas dão origem a outras.
Começou a folhear o livro passando pelas imagens, e textos que foi lendo até chegar ao que falava de poderes adormecidos e como despertá-los. Leu que alguns poderes demoram certo tempo a serem detectados, pois são fracos e como tal demoram mais tempo para se revelarem. Os poderes começam a revelar-se quando a pessoa que os transporta estiver pronta para poder lidar com eles. Leu também que algumas pessoas com características de animais, têm tendência a despertar os seus poderes mais cedo, demonstrando logo à partida que têm capacidades diferentes dos Humanos.
No final deste capítulo, pode ler que há poderes que são despertados mais cedo do que deviam e por isso são “adormecidos”, para que eles só voltem a despertar quando a pessoa estiver realmente preparada. A forma para despertar esses poderes é descobrir qual a capacidade que têm, descobrindo assim qual o seu poder elementar e concentrarem-se nela, tornando o processo de despertar mais rápido.
- Boa, mas se eu não sei qual o elemento a que pertenço. Como vou saber como é que os desperto? – questionava-se, colocando o livro em cima do banco e olhou em seu redoroa, mas se eu não sei qual o elemento a que pertenço. Como vou saber como é que os desperto? – questionava-se, colocando o livro em cima do banco e olhou em seu redor. Olhou para a estátua das três senhoras que, tal como da primeira vez, pareciam chamá-la. Levantou-se e foi em sua direcção, observando melhor os pormenores daquela magnífica obra.
Era uma estátua em mármore liso, demonstrando três senhoras em cima de uma rocha pintada de castanho, onde as duas da ponta permaneciam sentadas enquanto a do centro estava de joelhos sobre aquela rocha bem detalhada. Esta Possuía longos cabelos lisos que formavam canudos nas pontas, aparentando estar vestida com um vestido de alças, e com duas grandes asas de anjo abertas, que lhe saiam das costas. A do lado direito tinha longos cabelos meio encaracolados, apresentando-se com um vestido que se prendia no pescoço, possuindo duas asas, meio rasgadas nas pontas, que haviam pintado de preto. A senhora que se aprestava mais à esquerda não tinha asas, nem cabelos soltos, como as outras duas. Os seus longos cabelos estavam presos em duas tranças, usando uma coroa feita de folhas, pintadas de verde, em cima da cabeça e vestida com um vestido de mangas até aos cotovelos.
Shara ficou a olhar para esta senhora. Era bela, com traços que lembravam uma deusa grega. Perfeitamente esculpidos, tal como as que se apresentavam a seu lado. Contudo, emanava uma aura familiar e de profunda tristeza. Pousou a mão direita em cima do braço da senhora da estátua, num gesto quase que intuitivo, quando os seus olhos deixaram de a ver.
Os olhos de Shara não apresentavam mais nada para além da névoa escura e gelada, mostrando de vez em quando pequenos flashes meio desfocados de pessoas a correm com ares de medo expressos nas suas caras, fugindo de algo parecido com uma pessoa. Os seus olhos tentaram focar aquelas imagens obscurecidas, tentando ao máximo ver o que se passava, mas sem êxito. Tudo o que conseguia ver era as pessoas a fugirem daquele ser que tocava nas criaturas que o rodeavam, deixando-as cair no chão sem vida.
Um professor passou pelas traseiras do castelo e viu Shara com a mão na estátua, dirigindo-se a ela.
- O que pensas estar a fazer? – perguntou com brusquidão. Mas ela não lhe respondeu, nem se virou para ele, como se não o tivesse ouvido.
- Estás a ouvir! – disse pegando no ombro dela e rodou-o para que ela o encarasse, deixando-o admirado.
Os olhos de Shara estavam completamente vazios, sem qualquer expressão, sentimento ou luminosidade. Era como se estivesse no meio de um transe. Ao poucos os seus olhos foram ganhando um outro traço, uma outra tonalidade. Aquela cor verde relva, que lhe era tão familiar. Que durante tantos anos o observara e pelo quais se tinha apaixonado.
- O nosso filho vai voltar a trazer problemas – proferiu Shara, com a mão ainda encostada à estátua.
Aos poucos a névoa começou a desaparecer dos seus olhos, deixando as imagens desfocadas para trás. Preenchendo a sua visão com as cores presentes à sua frete.
Shara piscou os olhos algumas vezes, retirando a mão da estátua para os esfregar e olhou para o professor à sua frente que ainda mantinha a mão em cima do seu ombro.
Este viu-a deixar aquele transe. Permitindo que as cores voltarem de novo aos seus olhos, preenchendo-os com a vida que habitualmente costumam ter.
Shara assustou-se quando o viu, recuando um pouco. Era o senhor que ela havia visto na Terra, aquele que a havia trazido para este mundo.
Apresentava a mesma aparência de sempre, rígida, e meio zangada, mostrando-o claramente através do seu olho esquerdo, enquanto o outro estava tapado com uma pala meio disfarçada com o cabelo.
- O que querias dizer com aquilo? – perguntou bruscamente, sem conseguir controlar o tom nervoso da sua voz.
- Mas eu não disse nada – respondeu, sem compreender do que ele falava.
O professor fitou-a durante um período de tempo, que a Shara pareceu interminável, e depois virou costas e dirigiu-se para o castelo.
- Vê se tomas mais atenção. Apesar de seres nova aqui, demonstra pelo menos algum respeito por elas e por aquilo que te mostram! – disse desaparecendo no interior do castelo.
Shara ficou a vê-lo desaparecer, virando de seguida a sua atenção para a estátua. Esta não parecia chama-la como dantes. Estava mais silenciosa do que nunca. “que estranho” pensou.
Pegou no livro e seguiu em direcção ao outro lado do castelo, sentando-se nos degraus da escada que davam acesso ao pátio onde estavam as casas dos elementos.
- Eles já não devem demorar muito a sair – murmurou para si mesma, quando sentiu alguém a aproximar-se atrás de si.
- É frequente falares sozinha? – perguntou uma voz calma e amável.
Shara olhou para trás avistado uma senhora vestida com um comprido vestido branco, decorado com rendas cremes por cima do tecido leve do vestido. Possuía uns longos cabelos loiros que formavam canudos nas pontas, que lhe modelavam as faces clássicas perfeitamente esculpidas. Possuía uns potentes brilhantes olhos verdes, que ilustravam saber e carinho.
- Eh… não é propriamente habitual, mas de vez em quando sabe bem – respondeu rindo envergonhada.
- Estou a ver – disse aproximando-se, e sentando-se de uma forma angelical nas escadas ao lado de Shara. – Como te estás a habituar a isto tudo? – perguntou com amabilidade.
- Creio estar a sair-me bem, mas ainda me estou a habituar.
- É normal. Mas há algum problema que te esteja a incomodar? – perguntou olhado para o livro que Shara tinha na mão.
- Bem… são os poderes. Todos têm, e estão sempre a dizer-me que eu também tenho, mas eu não sinto nada.
- Mas não leste que há poderes que demoram a ser revelados, por motivos de preparação, ou… por terem sido selados?
- Sim, mas também li que esses poderes, são despertos logo após a entrada da pessoa neste mundo. E eu continuo sem sentir nada.
- Talvez já os tenhas desperto, só que ainda não reparaste. Por vezes acontece, e tendo em conta o teu caso, isso pode ser uma possibilidade. Uma grande possibilidade.
Shara ficou a olhar para a senhora durante um bocado, reflectindo no que ela acabara de dizer.
- Mas nesse caso, os professores não teriam notado? – perguntou em voz baixa, como se perguntasse a ela mesma.
- Sim, mas pelo que a professora Angelique me disse. Tu conseguiste focar a tua energia espiritual na bola de cristal. E devo dizer que isso á algo complicado, para alguém que acabou de chagar. Normalmente os alunos demoram um certo tempo a conseguirem fazê-lo.
Shara olhou para as casas dos elementos à sua frente. Ela havia conseguido despertar a sua energia interior para a bola de cristal. O que de alguma forma demonstrava que ela tinha algumas capacidades. Certo?
- A propósito, o Professor Damion, disse que te tinha visto nas traseiras do castelo perto da estátua. O que estavas a fazer? – perguntou interrompendo o raciocínio dela.
- Estava a ler o livro, porque parecia ser um lugar calmo e tranquilo. Quando elas me chamaram…
- Elas?
- Sim. Isto vai parecer estranho, mas acho que as senhoras das estátuas me chamaram, e por isso é que estava ao pé delas quando o professor… Espere! Ele é professor? – perguntou admirada com o facto de uma pessoa com um ar tão carrancudo e indelicado pudesse dar aulas.
- Sim o Damion é o professor dos alunos da noite – explicou rindo-se da expressão da rapariga.
- Isso explica o seu mau feitio e, o facto de dizer coisas sem sentido – desabafou Shara sem pensar.
- Ele disse-te algo sem sentido?
- Sim, quer dizer ele disse que devia demonstrar mais respeito por aquilo que a estátua me mostra. Como se fosso possível uma estátua mostrar alguma coisa. Como se fosse possível uma estátua, sequer chamar. Tu és tão tosca Shara.
A professora parecia reflectir em algo, algo que compreendia e que Shara também devia compreender.
- Talvez ele tenha razão. As antigas guardiãs mostraram-te algo?
- Não, talvez, não sei, por um lado acho que não, mas por outro acho que sim – Respondeu meio confusa. – Eu lembro de ter…hum… adormecido, ou algo do género. E de ver imagens meio desfocadas, mas não me lembro do que era – disse tentando recordar aquilo que vira, ou que julgava ter visto. As imagens com que estava habituada a lidar não eram tão sentidas e intensas como aquelas pareciam ter sido.
- É normal que te sintas confusa neste momento, ainda te estás a habituar a tudo isto – respondeu com um sorriso. – E também aos teus poderes – disse num murmúrio, que Shara não conseguiu ouvir.
Shara viu as portas das casas dos elementos a abrirem-se, e de lá saírem os alunos. Olhou para o lado, mas já não via ninguém. A senhora com quem falava já não se encontrava lá, e Shara começava a questionar-se se a havia imaginado.
- Shara, Shara – ouviu uma voz de criança a gritar o seu nome animadamente.
Virou e viu Jack a correr na sua direcção, de braços abertos, dando-lhe um abraço quando chegou perto dela.
- Olá Jack, como correu a aula?
- Correu bem. O professor disse que eu estava a ir bem, mesmo muito bem. Mas depois teve de sair. Pois é onde terá ido? – questionava-se colocando o indicador na bochecha, acompanhado por uma pequena careta.
- Quem é o teu professor Jack?
- É o professor Damion. Ele é muito simpático e atencioso, mas teve de sair da aula de repente – disse animado.
Shara ficou abismada a olhar para o miúdo, questionando-se se falava do mesmo professor que havia visto há pouco tempo. Aquele senhor de mau humor e de ar zangado, que lhe repreendera de uma forma irritada.
- Se calhar teve de ir repreender alguém – disse sem querer.
- Não, o professor é muito simpático, ele não ralha com ninguém, nem mesmo com aqueles que dão cabo da cabeça de toda a gente.
“Com ninguém excepto comigo. O que lhe terei feito?” questionava-se.
Flora e Aqua, levaram-na para o seu quarto, reclamando o facto de Shara não ter aberto todas as caixas de roupa que lhe haviam comprado.
Abriram o armário e viram uma caixa redonda alta, que ainda não havia sido aberta.
- Está aqui. Francamente e tu achavas que não te tínhamos comprado roupa para fazeres desporto?!
- É, por isso estavas preocupada quando dissemos que tinhas de te ir equipar para a aula de desporto. Não olhaste para todas as caixas?
- Desculpem – disse amuada. – Mas eu olhei. Pelo menos as duas primeiras caixas, ou seja, eu de certa forma olhei para elas – continuou tentando defender-se daqueles olhares chateados das amigas.
- Vá despacha-te a vestir. Lembra-te que só temos quinze minutos para nos arranjarmos – lembrou Flora saindo do quarto com Aqua para se poderem equipar.
Shara esvaziou a caixa redonda e alta para cima da cama, preenchendo-a com t-shirt, blusas de alças, casacos e calças de fato de treino. Olhou para todas aquelas peças de roupa, optando por vestir umas calças de fato de treino pretas com uma faixa rosa de lado, uma blusa de alças que se cruzavam atrás, sendo o lado direito em rosa e o esquerdo em cinzento. Vestiu um casaco de fato de treino branco por cima e foi à caixa dos sapatos, procurar os ténis. Atou o cabelo numa trança, preso com um elástico preto e desceu as escadas.
Seguiram todas animadas para o ginásio, enquanto o professor Damion, responsável pela aula aos rapazes foi para o campo de futebol, deixando o ginásio livre para as raparigas e a professora Angelique.
- Ok meninas hoje a nossa aula vai ser dedicada à ginástica, por isso toca a pegar nos colchões e vamos trabalhar – disse alegremente.
Todas na aula pareciam estar a divertirem-se, a arranjar as barras, os colchões e os tapetes para poderem começar a aula. Todas excepto as alunas da noite, que pareciam demasiado “superiores” para poderem gastar as unhas a trabalharem.
Todas estavam vestidas com fato de treino pretas e t-shirt escuras, mostrando expressões de desagrado quando alguma aluna do dia passava por elas.
“Possas, que elas conseguem mesmo ser irritantes”, pensou enquanto ajudava as colegas.
A professora dividiu as alunas em três grupos, um para as barras, outro para o tapete e um outro para as fitas, bolas e cordas. Shara e as amigas começaram com as barras, onde puderam fazer cambalhotas à frente e a trás, Saltos pak, backflips, entre outros. Para Shara aquilo não era difícil, visto que praticava ginástica desde os 9 anos e, por isso havia elaborado aquilo uma serie de vezes. De vez em quando as raparigas da noite olhavam-na com um ar zangado, principalmente a rapariga de cabelos meio arruivados enrolados ao lado da cabeça, e de vestido rosa, que condiziam, de uma forma assustadora, com os seus ténis rosa choque. Shara mexeu-se um pouco de um lado apara o outro, para ter a certeza de que era para ela que a rapariga alvejava.
- Porque é que ela está a olhar daquela maneira para mim? – perguntou às amigas, já farta daqueles olhares.
As amigas seguiram o seu olhar e viram qual era a rapariga que Shara mencionava.
- Ah, é a Luna – disse Flora com algum desprezo pela forma como esta olhava.
- Não te preocupes muito com isso. Ela apenas está a sentir o seu território e o facto de ser a estrela da ginástica, ameaçada – explicou Aqua demonstrando o mesmo desprezo que Flora.
- E porque é que se sente assim?
- É porque de todas nós, ela era a melhor na ginástica.
- Isto é, antes de tu apareceres. Já viste a forma como fazes as coisas? Parece que iluminas as barras quando rodopias.
- Que bom, é o meu segundo dia cá e já tenho mais uma inimiga para acrescentar à lista – respondeu com um ar meio brincalhão, meio aborrecido. – O que será que fiz para merecer todos estes amigos indesejados?
Passaram pelas três áreas, elaborando aquilo que a professora ia dizendo. Pedindo de vez em quando a Shara ou a Luna que demonstrassem, para que as restantes alunas pudessem compreender.
Shara estava a elaborar o pino, quando sentiu uma brisa que puxou o colchão de repente fazendo com que ela batesse com a cabeça quando caiu. Não se tinha aleijado muito, apesar da tontura repentina que sentira. Sentiu as amigas e a professora a aproximarem-se preocupadas
- Estás bem? – perguntava a professora alarmada, ajudando-a a levantar-se, pegando-lhe na mão esquerda.
- Sim, foi só… - começou por dizer, mas não consegui terminar a frase. A sua visão voltara a ficar enublada e escura, até que viu a sua professora a ajudar uma colega a fazer o pino. A professora apresentava-se mais nova, vestida com uns calções cremes e uma blusa branca, segurando as pernas da colega que fazia o pino. Foi quando alguém a empurrou, de propósito, fazendo com ela atirasse colega que ajudava ao chão. A rapariga agarrou-se de imediato à cabeça, arquejando de dores, enquanto a jovem Angelique tentava ajudá-la. A queda não teria sido grave. Isto caso, a rapariga não estivesse a fazer o pino em cima do boque e se tivesse caído de uma forma segura.
A sua visão voltou a ficar normal e Shara conseguiu ver o ar preocupado da sua professora, tal como o tinha visto quando ela era mais nova.
- Eu estou bem professora, não se preocupe – disse tentando acalma-la. Levantou-se e sorriu-lhe mostrando que estava realmente bem. A professora suspirou de alívio, mas manteve uma expressão preocupada.
- O que aconteceu à sua colega não foi culpa sua. Alguém a empurrou e você deixou-a cair, não se deve martirizar por isso – disse tentando tirar aquela expressão, que não assentava bem no rosto angelical e jovial da senhora.
A professora olhou surpreendida, piscando os olhos algumas vezes.
- Como sabes disso? – perguntou admirada por ela saber de algo que tinha acontecido há tanto tempo.
- Eu… ah… não sei. Acho que o vi – disse com um sorriso confuso.
- Isso acontece muito?
- Não – respondeu rapidamente. A verdade é que já estava habituada a ver coisas assim, mas não com aquela nitidez. Contudo ao ver a expressão da professora decidiu contar a verdade. - Quer dizer mais ou menos. Eu por vezes tenho pressentimentos, ou espécies de sonhos, como se visse o que aconteceu, ou o que vai acontecer…
- Ou seja, tu consegues ver aquilo que já aconteceu, como também o que ainda está para acontecer – disse a professora, como se falasse para ela mesmo.
- Pois. Mas isso é… mau. Quer dizer é uma coisa natural, não é ?
- Tendo em conta o teu caso… Sim , mas não te preocupes mais com o assunto, está bem – disse apressadamente e virando-lhe costas, ajudando as outras raparigas.
- Ok meninas, por hoje é tudo – disse a professora dando a aula de ginástica por terminada.
- Shara porque não vamos ver os rapazes? A Aula deles ainda não acabou – disse Flora enquanto saiam do ginásio, dirigindo-se para o campo de futebol.
No campo era fácil distinguir os alunos do dia, dos alunos da noite. Tal como as raparigas, os alunos da noite usavam fatos de treino em tons escuros e pretos, enquanto os alunos do dia vestiam roupa mais colorida.
Flora e Aqua sentaram-se no banco que estava perto do campo, donde podiam ver o jogo facilmente, enquanto Shara optou por sentar-se de pernas cruzadas no chão a seu lado.
O jogo parecia estar renhido, como se eles não estivessem só a jogar futebol, pois pela forma como se comportavam parecia que havia mais qualquer coisa.
- Oh não – disse Aqua olhando para o jogo.
- O que foi?
- Os alunos da noite voltaram a fazer do jogo uma competição – explicou Flora.
- Uma competição?
- Sim quem ganhar pode fazer com que pelo menos um elemento da outra equipa faça algo que eles queiram – disse Aqua aborrecida.
- Mas isso é permitido? –
- Normalmente o professor vai a votos, para saber se o querem fazer ou não. O que por sua vez é completamente injusto, visto que há mais alunos da noite do que do dia, e eles acabam sempre por ganhar.
- Que injustiça. Nota-se logo que o professor está do lado dos alunos da noite – reclamou Shara observando o jogo.
- Mas tu tens alguma briga especial com ele?
- Não! Simplesmente não o entendo muito bem. Mas eles podem usar os seus poderes?
- Não! É uma regra das aulas de desporto. Regra que pelo menos aqueles seres… repugnantes respeitam.
- Então Aqua?! O que aconteceu à paz e amor?
- Estamos a falar dos alunos da noite.
- Pois. Nada de paz e amor para eles, está visto.
Shara continuou a ver o jogo, observando os movimentos dos jogadores, reparando que os da noite gostavam muito de fazer passes bruscos e rápidos, não se importando se atropelavam os outros ou não. Observava a bola que rodava de uma lado para o outro até parar nos pés de Matt, que passava pelos adversários sem problemas. Estava pronto para rematar à baliza, estando num frente a frente com o Michel, que ocupava o lugar de guarda-redes. Contudo não foi para ele que rematou, olhou para o lado, rematando com força contra Jack, atingindo-o na barriga.
Todos ficaram petrificados a olhar para aquilo, enquanto o rapaz se agarrava à barriga caindo de joelhos no chão.
Hiro, Erik e Michel correram para junto dele, enquanto Shara se levantava rapidamente juntando-se aos amigos.
- Jack, Jack estás bem? – perguntava assustada e preocupada com o seu pequeno amigo, que mantinha a cabeça baixa, deixando escapar algumas lágrimas que Shara conseguira ver.
- É para aprenderes a não te meteres comigo puto. Para a próxima já sabes o que te acontece – dizia Matt, rindo sarcasticamente, começando a virar-se de costas.
Shara não conseguiu evitar a raiva que estava a sentir e sem pensar levantou-se caminhando em direcção a Matt, que se virou para ela. Puxou o braço para trás, cerrando o punho, e deixou que este seguisse o seu caminho com força, embatendo na cara de Matt. Este recuou um pouco, esfregando a bochecha, onde Shara lhe havia dado o murro, olhando-a admirado.
- Como pudeste fazer isso. Ele é uma criança, e tu… rematas daquela maneira contra ele… de propósito – dizia Shara irritada, enquanto Hiro a segurava pelos braços, de forma a ela não voltar a espetar mais uns quantos socos no Matt, como estava a pensar fazer.
Flora e Aqua sentaram Jack ao seu lado, que ainda esfregava a barriga apesar de a dor ter começado a passar, enquanto Erik e Michel olhavam admirados para Shara.
Matt mostrou um sorriso de esguelha e virou-se para Erik, dizendo:
- Não te esqueças do que combinámos. Quem ganhar pode obrigar um elemento a fazer a sua vontade. E tu estás no topo da lista. Mas pelos visto vocês têm um elemento a menos e não tem substitutos, ao contrário de nós – dizia rindo amargamente.
- Eu jogo pelo Jack! – disse Shara assim que ele virou costas. Todos ficaram admirados, com aquilo, incluindo Matt.
- Shara não podes. Tu és uma rapariga e eles vão magoar-te – dizia Erik, tentando fazê-la repensar no assunto, convencendo-a a não o fazer.
- Ele tem razão. Eles são uns brutamontes e ainda te aleijam com o fizeram com o Jack – ajudava Michel.
Shara ficou calada, olhando zangada para Matt, que continuava a rir-se do que havia feito.
- Esquece. Ela já está decidida, e olha que não é coisa boa – disse Hiro, soltando-lhe os baços.
- Mas não podes Shara… professor diga-lhe que não pode jogar – pedia Flora ao professor Damion. Este observou-a durante um bocado, avaliando a sua expressão.
- Muito bem, novata entra no jogo. Mas aviso-te se te acontecer alguma coisa, a responsabilidade é completamente tua.
Shara assentiu e colocou-se na posição de médio, ocupando o lugar de Jack. Tirou o casaco e amarrou-o à cintura, facilitando os movimentos.
O jogo recomeçou com os alunos do dia a atacarem, fazendo passes rápidos uns com os outros, para que não tivessem de esbarrar contra os da outra equipa. No entanto Shara não o fez, agarrou na bola e segui em frente, fitando os adversários, passando a Erik e Hiro que a seguiam de lado. Matt colocou-se à sua frente, tentando tirar-lhe a bola, mas ela fitou-o, passando a bola por entre as pernas e prosseguindo até à baliza. Passou a um outro colega e este marcou.
O Jogo estava agora a 3-2, com a equipa da noite ainda a ganhar.
Começaram a contra atacar, tentando passar por Shara exercitando cargas de ombros, das quais ela se desviava, sendo atingida por uma que Lex lhe havia dado, fazendo-a cair. Não ficou caída por muito tempo. Levantou-se esfregando o ombro algumas vezes e voltando à sua posição, retiram-lhe a bola e passaram-na a Hiro que marcou outro golo.
A expressão de Matt foi-se alterando, passando de um sorriso sarcástico a um que mais parecia um rugido, resolvendo por isso fazer um frente a frente com Shara. Colocou-se à sua frente com a bola nos pés, rodando-a de forma a conseguir provoca-la.
- Então novata, não vais tentar tirar-me a bola, ou será que já estás com medo – dizia mostrando um meio sorriso, continuando a provocá-la.
- Sabes que esta equipa, é constituída por mais jogadores. O que significa que… não deves dar importância a apenas um – disse devolvendo-lhe o sorriso trocista.
- O que queres dizer com… - quando Matt ia terminar a frase, Hiro apareceu por trás e tirou-lhe a bola, enquanto este prestava a sua atenção só em Shara.
- Eu avisei-te – dizia a rapariga ao passar por ele, juntando-se ao ataque, deixando um Matt zangado atrás de si.
O professor deu o apito final, logo após ao alunos do dia terem marcado o 4º golo, obtendo assim a vitória. Isto deixou os alunos da noite muito assanhados, em especial Matt, que não queria admitir ter perdido contra uma rapariga. Começou a ir em direcção à escola, juntamente com os outros quando Shara o chamou.
- Não disseste que quem vencesse podia obrigar um elemento da outra equipa a fazer o que quisessem?
- Tu de certeza que não me queres provocar… – disse virando-se de frente para Shara, pensando que ela dizia aquilo de uma forma medrosa. Mas não foi isso que viu. A rapariga apresentava uma expressão séria e rígida, mostrando a Matt que falava a sério.
- Eu quero que peças desculpa ao Jack! – disse Shara sem rodeios.
- Só podes estar a brincar.
- Pareço-te que esteja a brincar? Não! Agora pede-lhe desculpas!
Matt dirigiu-se ao miúdo sentado no banco, que o olhava com um certo receio, baixando-se e disse:
- Desculpa – disse entre dentes.
- Hah? Eu não ouvi nada – disse Shara atrás de si.
- Desculpa – voltou Matt a repetir baixinho.
- Ainda não ouvi.
- D-E-S-C-U-L-P-A – proferiu Matt aos altos berros. – E agora já ouviste? – disse irritado, virando-se para Shara.
- Já. Mas não é assim que se pede desculpa a uma criança, que acabaste de magoar, pois não? – Shara devolveu-lhe o mesmo sorriso sarcástico que ele lhe havia mostrado tantas vezes.
Matt cerrou os dentes, inspirou fundo e olhou de seguida para Jack.
- Desculpa pelo que te fiz – pediu com ar de quem aparentava estar arrependido, deixando todos admirados. Depois levantou-se ficando de frente para Shara. – E agora já estás feliz? – tinha uma expressão seria mas com um certo arrependimento, que esforçava para esconder. Sem qualquer traço de irritação ou provocação.
- Sim. Acho que agora é que lhe pediste umas desculpas decentes – respondeu meio atordoada. Deixando escapar uma réstia de amargura na voz.
Matt afastou-se em direcção ao castelo, passando pelos seus colegas, que não o seguiram. Esfregava a bochecha onde Shara havia-lhe dado o murro, mostrando um sorriso ligeiro.
- Sabes talvez ela não seja assim tão má para ti – dizia uma pequena sombra atrás de um dos pilares da janela, pelo qual passava.
- Não me aborreças agora Artemisa – disse para donde provinha a voz, prosseguindo o seu caminho.
- Estás melhor Jack? – perguntava Shara preocupada, sentando-se à sua frente.
- Sim. Ainda dói um bocadinho, mas já está a passar – respondeu com o seu habitual sorriso, tranquilizando-a. – Shara não disseste que sabias jogar à bola. E jogaste muito bem contra aqueles muros grandes.
- Pois foi. Onde aprendeste a jogar assim? – perguntava Michel, enquanto seguiam pelo comprido corredor em direcção ao refeitório.
- Eu passei quase um ano com a minha avó no campo. E lá não havia outro desporto que se pudesse praticar, para além do futebol. E como quem costumava jogar eram uns miúdos mais velhos, eu aprendi a jogar à maneira deles – disse com um sorriso, caminhando agarrada ao braço esquerdo, sem que ninguém notasse.
- Mas eu tenho que admitir. O que eu gostei mais foi do murro que espetaste naquele Matt convencido – dizia Flora, tentando imitar o que Shara havia feito.
- Pois, isso foi mesmo bestial – disse Hiro rindo-se enquanto recordava da expressão admirada na cara de Matt.
- Mas… eu tenho uma questão, porque obrigaste-o a pedir desculpa ao Jack? – perguntou Aqua. – Podias ter pedido outra coisa.
- Porque para um tipo como ele pedir desculpa, é a mesma coisa que estragar-lhe o ego. E alem disso, o Jack merecia que lhe tivessem pedido desculpa, não é? – Perguntou sorrindo ao pequeno, que retribuiu o sorriso abanando as caudas.
Todos entraram no refeitório, animados. Todos menos Erik que pucou Shara pelo braço direito, fazendo com que os outros fechassem a porta, sem eles terem entrado.
- O que foi? – perguntou Shara olhando-o.
Erik observou a braço dela, afastando o casaco que havia vestido sem o abotoar, mostrando o ombro esquerdo esfolado, onde Lex havia feito carga de ombro.
- Porque não disseste que te doía o ombro? – perguntou olhando-a sério, mas com preocupação nos olhos.
- É que… pensei que não tivessem reparado
Erik voltou a olhar para o ombro dela, colocando-lhe a sua mão quente em cima.
- Da próxima vez que te aleijares. Diz-me, e não mo escondas – pediu tirando a sua mão. Shara olhou para o ombro e viu que a sua ferida havia sarado.
- Curaste-a? – perguntou a Erik, que apresentava estar um pouco cansado.
- Sim. Mas por favor, não voltes a magoar-te – pediu voltando a tapar-lhe o ombro com o casaco.
- Vou tentar. E obrigada - disse com um sorriso amável.
Erik voltou a abrir a porta e entrou. Shara seguia-o, quando sentiu alguém a observá-la, virou-se e viu Matt do outro lado a olhá-la de uma maneira diferente do habitual. Não era de uma forma zangada, superior ou séria, era de uma forma meio triste e preocupada, mas que rapidamente desapareceu quando ele virou costas e se foi embora.
Shara arrumou as roupas de desporto no armário e vestiu o pijama roxo claro, composto por uns calções e uma blusa de alças. Os dias eram muito calorentos ao passo que as noites eram geladas. Felizmente o interior do castelo era a quente, como se houvesse aquecedores dentro das suas paredes.
Sentou-se na cama pegando em Neko com um braço e no livro que havia trazido da biblioteca com o outro, abrindo-o na página correspondente ao poder espiritual, sem querer.
Começou a lê-la com atenção, ficando a saber que cada pessoa possui uma luz branca ou escura, de acordo com as suas capacidades, sendo desta maneia que os professores podem saber se são alunos do dia ou alunos da noite. A luz branca provem dos anjos, sendo a cor da luz e da vida, enquanto a luz preta provem dos demónios, simbolizando a escuridão.
Chegou ao fim com uma questão “a qual destes é que eu pertenço?” pensava recordando nas duas cores que se debatiam uma com a outra no fundo da sua bola de cristal na aula. Porque segundo o que dizia no livro cada pessoa, tem uma e apenas uma cor, e não duas como ele tinha visto.
Continuou ler o livro, passando pelo simbolismo da cor com o elemento, o que se pode fazer com cada elemento e pelas capacidades que cada elemento apresenta ter, mas sem falar no elemento da luz e da escuridão.
- Talvez não haja realmente muitas pessoas com essa capacidade, e por isso é que não aparece no livro – disse para o seu gato, levantando-se e pousando o livro em cima da secretária, onde havia sido colocado um relógio prateado, igual ao que Erik tinha no quarto. Olhou para este e viu que já era quase meia-noite. Havia lido tanto, que não se apercebera das horas a passarem. Voltou-se para a cama e viu a pequena raposa de cristal, que Jack lhe havia dado em cima da sua almofada.
- Tu pereces ter vida, volta não volta apareces em zonas diferentes, das quais não me lembro de te ter posto – disse pegando na raposa e colocando-a em cima de secretária. De seguida deitou-se de lado na cama, rodeando Neko com o braço direito, deixando a mão esquerda virada para cima à frente da cara.
- Era tão bom se tu tivesses vida, não é Neko – disse sonolenta e foi adormecendo. Antes de se entregar ao sono, sentiu um grande calor encostado ao seu braço direito, sentindo algo a bater, como se fosse um coração. Enquanto na sua mão esquerda sentiu algo frio a pousar e a aninhar-se na sua palma. Não abriu os olhos, e entregou-se ao sono, esquecendo aquelas duas pequenas sensações.
3 comentários:
VAI MISA, VAI MISA, VAI VAI VAI MISA!!
IT'S YOUR BIRTHDAY!
Ainda vou a meio do capítulo, mas não queria deixar de dizer que também adoro Yiruma, foi uma excelente escolha musical para a prenda do Erik...
Terminada a leitura...para quando o próximo capítulo?
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