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Dark and White - 1º Capítulo

1º Capítulo
A escuridão invadia o espaço à sua volta e por mais que corresse não conseguia alcançar o rapaz de cabelos negros que desaparecia à sua frente, afastando-se cada vez mais e mais dela. Esticou a sua mão direita na esperança de alcançar a dele, aquela pequena mão com uma marca em forma de lua no pulso, mas de nada adiantou, nada o fazia abrandar por mais que quisesse. O rapaz finalmente parou e olhou para trás acenando um adeus triste, e com a sua cara indefinida pela sombra que o enrolavam como um manto negro, desapareceu.
Shara tentou gritar por ele “Neko” mas as palavras não lhe saíam da boca por mais que se esforçasse a pronuncia-las, tentando empurra-las cá para fora com todas as suas forças, mas nada aconteceu. O som não saía, e por fim a sombra tomou conta de tudo o que via.
Shara acordou exaltada com os cobertores no chão e a cama desfeita. Olhou em volta para o seu pequeno quarto murmurando: “foi só um sonho, foi só um sonho”; fora um sonho que já não tinha há muito tempo, um pesadelo que a assombrava quando criança depois da partida do seu melhor amigo. Levantou-se e tentou fazer a cama o melhor que pode, tendo em conta que era um autêntico desastre a fazer seja o que fosse que estivesse ligado à casa. Desde fazer a cama, a lavar a louça, até a arrumar a roupa, pois para ela tudo era uma perda de tempo. “para que é que eu vou fazer a cama se esta noite a vou desmanchar outra vez, não vale a pena estar a preocupar-me com isso” pensava observando a cama mal feita.
Olhou para o chão e viu o seu peluche caído ao pé da secretária, provavelmente havia-o atirado para lá durante o seu pesadelo. Pegou nele e observou se estava tudo bem, se não havia sujidade ou algum rasgão que pudesse ter ocorrido durante o impacto com os objectos da secretária.
- Desculpa Neko – dizia triste – lamento muito ter-te atirado para o chão, vou tentar ser mais cuidadosa da próxima vez, mas já sabes que ninguém se controla durante os sonhos, principalmente eu – dizia rindo ao ver que estava tudo bem com o seu boneco. “Neko” fora o nome que dera ao seu gato de peluche, pois este havia sido oferecido pelo seu melhor amigo, a quem ela também chamava de Neko. Não conseguia lembrar ao certo o porquê, mas gostava desse nome.
O gato de peluche era negro com uns olhos amarelos tipicamente de um gato, possuindo duas asinhas de anjo e uma lua em quarto minguante na pata direita.
Shara olhou para cima da cabeceira e avistou o seu pequeno relógio redondo preso a uma espécie de tronco velho. Onde no chão havia um tigre branco a brincar com os seus pequenotes, e viu que eram 9h da manhã. Afastou as cortinas azuladas, abriu a janela e olhou para o brilhante céu da manhã.
- Hoje vai estar um dia lindo, não achas? – perguntava ao seu gato de peluche que sustinha nos braços como se pegasse num verdadeiro.
Vestiu as suas jeans de ganga, a sua t-shirt cinzenta decorada com manchas pretas para folhas e cinzentas escuras para borboletas, que lhe percorriam o lado esquerdo partindo do meio, onde havia duas grandes asas de anjo abertas com “ANGEL” escrito por cima. Calçou os allstars cinzentos e colocou uma pulseira redonda com um pequeno guizo prateado pendurado no meio. Atou os seus cabelos louros num rabo-de-cavalo e saiu do quarto percorrendo as escadas de madeira polida, indo para a cozinha.
Quando lá chegou viu a mesa rectangular de pedra, posta com as canecas, o leite, o chocolate, os pães, a manteiga e os três pratos com algumas panquecas cobertas com açúcar e caramelo, enquanto a sua mãe estava ao pé do fogão de frigideira na mão a virar e a revirar as restantes.
Sophi era uma senhora alta de cabelos castanhos curtos, que encaracolavam um pouco nas pontas, apresentando uma cor um pouco mais escura. Tinha uns olhos pequenos cor de relva claros, que contrastavam com o seu cabelo escuro. Tinha vestido um avental branco com um bolso azul claro ao meio, cobrindo a blusa amarela e calças pretas salpicadas com pequenas manchas prateadas que haviam caído quando tinham pintado o tecto no infantário.
- Bom dia mãe! Uh pannenkouken – dizia apontando para as panquecas, entusiasmada com o belo dia da manhã.
- Bom dia querida, estás muito bem-disposta hoje! – respondeu voltando a virar as panquecas que entretanto quase se iam queimando, graças à pequena troca de palavras e ao facto da mãe ainda estar um pouco adormecida.
- Pois claro que estou! Já viste o sol que está lá fora, é tão lindo comparado com os dias cinzentos e escuros que temos tido ultimamente. Hoje está mesmo bom – dizia mostrando um grande sorriso.
- Ainda bem que já recuperastes querida.
- Recuperei? Estive doente? Quando é que isso foi, é que não me lembro de nada.
- Não estou a falar de recuperar de doenças… estiveste doente? … Mas não era disso que me referia, era do pesadelo que tiveste hoje. Não paravas de te espernear na cama.
- Foi! Voltei a ter aquele sonho com a partida do Neko – disse Shara triste, lembrando-se do pesadelo que tivera.
- Shara por favor já tens 15 anos, não tens idade para isso. Quando tinhas cinco anos ainda se podia aceitar o facto de teres ficado triste com a partida do teu amigo imaginário, mas agora não!
- Mas mãe, o Neko não era o meu amigo imaginário, ele era real e morava na casa da frente. Tu devias lembrar-te, afinal é suposto os adultos lembrarem-se melhor das coisas! Não é por isso que queres que eu esteja sempre a comer peixe, para que eu tenha uma boa memória quando crescer!
- Sim é verdade que o peixe faz bem à memória e… mas não era disso que estávamos a discutir, não tentes mudar de assunto Shara Sofia. Estávamos a falar no facto de já teres 15 anos e de não poderes dar mais atenção ao teu amigo imaginário.
- Mãe eu só tenho mais um dia do que tinha ontem, só o número é que mudou de 14 para 15, de resto não mudou muito! Mas como estava a dizer o Neko existiu mesmo, tu viste-o várias vezes. Ele dormiu cá várias vezes e tua e a mãe dele eram muito amigas.
- Eu era amiga da Roxanna, mas não me lembro do resto Shara ! E estou a ver que vais continuar a insistir que ele existiu mesmo, tal como tens feito todos estes anos, por isso não vale a pena falar mais do assunto.
Aquele era um assunto que já discutiam faz anos, pois ninguém se lembrava daquele rapazito de seis anos que vivia na casa da frente, e que de repente havia desaparecido sem qualquer adeus. Nessa altura Shara tinha ido à casa dele para tentar falar com os pais, mas eles não se lembravam de alguma vez terem tido um filho. Pensara que era devido ao choque da perda, mas quando falou com os seus pais nem estes se lembravam dele. Era como se nunca tivesse existido, pois ninguém se recordava dele. Nem dele, nem do irmão que desaparecera alguns dias antes de Neko. Ninguém excepto ela, e essa era a razão pelo qual todos achavam que ele era o amigo imaginário da pequena rapariga, mesmo que não fosse assim.
Shara continuou a comer as suas panquecas calada, envolta nas suas vastas e nebulosas recordações quando, o seu pai entrou na cozinha. Ainda vestia o seu pijama de xadrez e o seu curto e encaracolado cabelo louro, agora totalmente despenteado. Com os olhos ainda meio fechados.
- Ora quem é ela, a menina crescida. Então como se sente a ter mais… deixa ver… mais um dia que ontem? – proferia com ar brincalhão, sentando-se à frente do prato e espetando uma pequena porção de panqueca com o garfo.
- Não sei pai, como te sentes com um dia a mais que ontem? Eu sinto-me na mesma, mas agora tu com a tua idade, é compreensível que te sintas diferente – dizia Shara respondendo à brincadeira do pai.
- Ora não sou assim tão velho. Posso ter a barba ainda por fazer e uns quantos cabelos brancos, mas isso não é nada que uma lâmina de barbear e uma tinta para o cabelo da tua mãe não resolva.
- Então, a minha tinta é que não. E eu que estava a pensar usá-la hoje para pintar o cabelo de vermelho. Mas acho que ainda sobrou alguma tinta prateada da parede do infantário se precisares – retribuía a mãe juntando-se à brincadeira habitual da manhã.
- Mãe já vou andando – dizia Shara fechando a sua mochila preta de desporto, onde havia colocado o seu fato de ginástica, as sapatilhas, a fita azul comprida, bem como o seu Neko.
- Shara porque é que tu levas o boneco? – perguntava a mãe olhando para o saco da filha enquanto esta o fechava.
- O nome dele é Neko, e leve-o porque… não sei porque acho que o devo levar, acho que… não sei, porque o levo. tchau – disse vestindo o casaco preto de fecho na diagonal. Colocou os auscultadores e saio pela porta de madeira da entrada, seguindo o seu caminho para o pavilhão de desporto.
O caminho não era longo, mas era complicado devido às “manadas” de pessoas que povoavam as ruas do Alexanderpolder na Holanda. Deslocando-se como pinguins gigantes aloirados, ruivos e morenos que passeavam com grandes sacos de compras que haviam sido feitas à última hora para o natal, do próximo dia.
Shara caminhava cuidadosamente para não bater em nada ou em nenhuma girafa que fosse demasiado preguiçosa para olhar para quem passava abaixo do seu campo de visão, passando devagar pelos espaços abertos por entre as pessoas.
Caminhava a olhar para o chão quando um homem se atravessou à sua frente fazendo-a bater e deixar cair o Mp4 que estivera na sua mão até o impacto com aquela parede preta. Apanhou o objecto do chão e quando olhou para cima para pedir desculpa, avistou um homem alto, de cabelo preto curto e liso que lhe chegava mais ou menos até ao meio da cara. Coberto por uma capa preta que lhe dava pelos calcanhares, olhando-a com um ar sério e meio zangado que a deixava um pouco assustada.
- Aha… aha… Desculpe – disse Shara passando pelo homem apressadamente.
Afastou-se rapidamente, passando pelos pequenos espaços abertos pelas pessoas que passavam na rua. Recordando aquele olhar gélido, aquele olhar que a tinha deixado aterrada sem saber explicar ao certo o porquê. Ela já havia visto aquele olhar antes, contudo por mais que desse voltas à cabeça não conseguia lembrar-se onde o tinha visto e por que é que lhe provocava tamanha sensação de medo.

Com o seu fato de ginástica branco, decorado com umas espécies de folhas arroxeadas que percorriam todo o lado esquerdo do ombro à cintura. Com as sapatilhas brancas calçadas e o cabelo atado numa trança, Shara dançava com a sua fita azul Saltando, rodando e rodopiando-a, ao som da música de fundo que a professora havia posto para as alunas que tal como ela, praticavam com as fitas e as bolas.
Após as fitas, foi para as barras onde elaborou uma serie de Saltos pak, backflips, rodando e saltando alegremente, preenchendo as barras com luz e alegria que enchia a sala com uma atmosfera agradável e contagiante. Depois das barras resolveu terminar a aula com a sua normal ginástica de solo, elaborando cambalhotas para à frente e para trás, flic-flac, pinos, pontes e diversos outros movimentos que lhe passavam pela cabeça.
Estava a elaborar a vela quando sentiu um olhar muito fixo nela. Pôs-se de pé e olhou em volta, mas não havia nada de errado, nem nada fora do normal. Todos trabalhavam normalmente sobre a observação da professora orientadora mas também não era ela que a observava, pois o olhar que sentira era gelado e assustador. Percorreu a longa sala observando tudo em sua volta, desde as pessoas aos objectos, pois não sabia ao certo de onde vinha tal presença e estava com um certo receio do que poderia ser. Pois a presença não a agradava e tinha um mau pressentimento de quem poderia ser.
A aula terminou e Shara foi para o balneário, lavou a cara, trocou de roupa, voltando a vestir a roupa com que havia chegado. Arrumou o fato, as sapatilhas e a fita no saco e saiu para a rua.
Assim que saiu voltou a sentir aquela presença outra vez, aquela estranha sensação de estar a ser observada, mas por mais que olhasse em volta não a conseguia detectar, não estava ninguém na rua e não havia sinais de qualquer animal.
Foi quando olhou para cima e o viu, de pé em cima do baixo muro de apoio dos espectadores, exibindo uma pose rígida e constrangedora. Olhando-a amargamente e sem desviar o olhar do dela. Shara sentiu um enorme peso em cima, como se segurasse num enorme pedregulho e o colocasse em cima da cabeça, provocando uma enorme tontura que a fez cair no chão. A visão começou a ficar destorcida e via-se a ser inundada pela escuridão que a puxava para baixo, como se caísse num enorme poço vazio, desmaiando.

O poço de sombras não parecia ter fim, tudo era negro e vazio, rodando em volta dela constantemente como um carrossel.
Começou a ouvir pequenos ruídos, vozes abafadas que falavam ao mesmo tempo, com tons distintos. Tentou torná-las perceptíveis, para poder perceber o que diziam, forçando a sua mente a raciocinar.
- Que coisa mais biz… bizarra, vê-se logo que é um deles!
- Deve ser para tentarem superar-nos!
- Ou então é a nova mascote que o director disse que ia arranjar-nos.
- Não esta é diferente! Sente só o cheiro.
- É diferente. Ela não tem o mesmo aroma doce que aquelas criaturas da luz!
- Pergunto-me se o seu sangue será tão saboroso, quanto o seu cheiro?
Ao ouvir tudo aquilo, Shara tentou bruscamente acordar, afastando a escuridão dos olhos, obrigando-os a abrir. Assim que despertou, tentou sentar-se, sentindo a sua cabeça a rodar, devido à enorme tontura que ainda sentia do desmaio.
As pessoas que a rodeavam não passavam de meras manchas desfocadas, revestidas em tons de cinza e preto, com algumas cores aqui e ali.
Esfregou os olhos algumas vezes, para que pudesse ver aqueles estranhos com alguma nitidez. Mas o que vira não era o que estava à espera, nenhum deles parecia inteiramente humano. Voltou a esfrega-los para ter a certeza de que estava a ver correctamente, ou se era a sua mente a pregar-lhe uma partida.
- Olha, deve estar assustada connosco! Tenho tanta pena dela – dizia um rindo maliciosamente.
Shara seguiu a voz e viu um rapaz de cabelo preto curto e escadeado, donde saiam duas pequenas asas escuras, nascidas na zona onde estavam, ou deveriam estar as orelhas. O que era aquilo? Um corvo? Um demónio? Um demónio! Só podia ser! Tal como todos os outros que a rodeavam no pequeno semicírculo junto ao muro de pedra.
Uns possuíam asas de morcego ou de corvo, outros possuíam pequenos ou grandes chifres pontiagudos, que por vezes se enrolavam de cada lado da cabeça, como os das cabras de montanha. Entre muitos outros.
Alguns olhavam-na com ares obcecados, como se ela tivesse algo que eles quisessem. Algo que ela possuísse, e que eles quisessem a todo o custo, e isso começou a assustá-la um pouco. Recuou, até se encostar à parede, onde permaneceu sentada.
- Olhem malta, está a ficar intimidada! Desculpa lá se também nos achas assustadores. Mas não te preocupes, não te vamos matar… pelo menos ainda não! – proferia o que estava mais perto de si.
Era um rapaz de pele clara, louro com algumas madeixas pretas e de olhos de gato azuis com alguns salpicos de verde. Vestia um casaco de cabedal, que cobria uma blusa branca, meia rasgada na gola, presa a umas calças de ganga preta. Atadas com um cinto prateado, com uma pequena caveira gravada no meio.
Tinha um aspecto alto, mesmo estando de cócoras, e possuía uma atitude do género “sou mesmo bom”. Que de certa forma assentava bem com a sua aparência rebelde.
Ele aparentava ser o chefe de todos aqueles demónios, mesmo que parecesse mais humano que todos os outros, sendo o único que estava mais dentro do semicírculo, com os restantes atrás de si.
Shara ficara tão admirada com aquele ser que aparentava ser tão humano quanto ela, que não tinha raciocinado o que este havia dito. Ele disse que a queria matar!
- Vá lá Matt, nós já não aguentamos. Aquele cheiro está a deixar-nos com água na boca. Queremos prová-lo!
- Sim Matt não sejas egoísta. Deixa-nos provar o seu sangue.
- Sangue? - murmurou Shara petrificada.
- Sim, sangue! Afinal é disso que alguns de nós, os demónios como vocês Terrestres nos chama, se alimentam. E o teu, em especial, tem um cheiro delicioso – dizia o rapaz louro lambendo o lábio inferior, e sorrindo sarcasticamente.
- Já chega, não aguentamos mais – referiu um de orelhas de cão felpudas e com uns dentes aguçados. Saltou por cima do rapaz à sua frente, aterrando em quatro patas de cão grandes. Shara apenas conseguia olhar para cima, pois estava demasiado aterrorizada para se poder mover completamente. Contudo já não via um rapaz. Em seu lugar estava um enorme cerberos.
Um cerberos em tons de castanho e preto, com as três cabeças de cão a rosnarem-lhe, demonstrando os seus brancos e afiados dentes, capazes de desfazer o que quer que fosse.
Ela encolheu-se toda. Rodeando os joelhos com os braços, apoiando a cabeça nos mesmos. Desejando que tudo não passasse de um sonho, do qual a qualquer momento iria acordar. Não queria ver os seres que amara e que defendera de todos aqueles que os detestavam, a atacá-la como criaturas malignas, que todos diziam ser.
Sentiu o cerberos a mexer-se. Ouvindo as rosnadelas cada vez mais próximas, bem como as garras a riscarem ferozmente o piso de mármore, aproximando-se. Ela esperou que o animal a acerta-se desejando que fosse rápido, mas nada aconteceu. Ouviu um estrondo de algo a cair, fazendo uma pequena corrente de ar que desviou as madeixas de cabelo da sua cara, ouvindo de seguida um grunhido criado pelo ser caído.
Levantou lentamente a cabeça dos joelhos, ainda a medo e viu a criatura amarrada no chão. Olhou para o que o sustinha preso e reparou que não eram cordas, era algo mais parecido com trepadeiras grossas que saiam do chão, prendendo as bocas, as patas e o corpo do animal ao solo.
- Que julgas que estás a fazer Matt? – gritou um rapaz fora do círculo, olhando irritadamente para o louro.
- Oh, vejam só. O bichano vem salvar a novata, que querido – disse o louro olhando para o rapaz que se aproximava, colocando-se ao lado do cerberos amarrado.
- O que se passa meninos? – perguntava uma senhora de longos cabelos louros, que por ali passava. Todos a olharam, abrindo o semicírculo, deixando Shara ao aberto.
- Céus, o que aconteceu? – perguntava correndo em direcção à rapariga encolhida no chão. – O que foi que te aconteceu? Estás bem? - mas Shara não respondeu. Em vez disso encolheu-se ainda mais, com receio de que voltassem a tentar magoa-la. “Isto é só um sonho, é só um sonho” repetia para si, mas sua mente dizia-lhe que não era bem assim. E ela sabia-o.
A senhora observou a expressão de medo nos seus olhos durante um bocado e depois voltou-se de costas, observando o ambiente que se tinha gerado. Olhou para o cerberos no chão e disse para o rapaz que agora se aproximava dela.
- Erik podes soltá-lo por favor. Ele já não lhe fará mal.
No mesmo momento o rapaz de cabelos negros, levantou a mão em direcção ao ser caído. Serrou o punho e voltou a abri-lo, fazendo as trepadeiras soltarem a criatura e voltarem à terra de onde provieram.
O cerberos levantou-se e recuperou a forma humana, voltando à aparência de um rapaz com orelhas de cão, tal como tivera inicialmente.
- Stuart, porque é que quiseste atacar esta rapariga? Ela acabou de chegar e é assim que a recebem? Isto tudo só irá causar mais confusões na sua cabeça – repreendia a senhora, mas mantendo uma voz suave, quase angelical.
- Nós só estávamos a dar-lhe as boas vindas stora. Simplesmente… foi à nossa maneira. E alem do mais, estávamos a demonstrar como são as coisas por aqui – respondeu o louro.
- Matt Night, tu melhor do que ninguém devias saber que esse tipo de coisas não se deve fazer. Que isso tudo só irá piorar a situação pela qual ela está a passar.
Este ficou a olhar pensativamente durante um breve instante para a professora e depois foi-se embora, levando o seu grupo, que riam e comentavam o que se havia passado, com ele.
- Lamento isto tudo. Eles não são crianças assim tão más, são apenas um pouco… diferentes – disse a senhora acocorando-se à frente da rapariga, tentando fazê-la sentir-se melhor. Mas não resultou. Shara continuava encolhida, com os braços a rodearem os joelhos, e a cabeça apoiada nestes, com medo de tudo o que tinha acontecido.
- Consegues acalmá-la? – ouviu a senhora dizer, mas não passava de um murmúrio.
Sentiu uma mão a pousar-lhe em cima da cabeça, fazendo-lhe pequenas festas. Levanto-a e viu o rapaz a olhar para ela, com uns olhos doces, que transmitiam carinho.
- Tem calma. Eles não te voltarão a fazer mal, prometo!
Shara deixou descair os joelhos, olhando para o rapaz. Estava vestido com umas calças de ganga azuis, uma camisa de manga curta branca, com os dois primeiros botões desabotoados, e com uma luva preta sem dedos, na mão direita. Possuía uns olhos de gato amarelados com uma pequena risca preta a meio, tipicamente de gato. O cabelo era negro como o breu, de onde saiam duas orelhas de gato igualmente pretas. Ficou a olhar para elas, vendo-as mexerem-se conforme os sons que invadiam o pátio. Não sabia ao certo porquê, mas algo lhe dizia que podia confiar nele. Uma voz calma que há muito que não ouvia, dizia-o.
- Já te sentes melhor? – perguntou o rapaz.
- Já. Obrigada – respondeu Shara a com um sorriso tímido. Já se sentia mais calma, mesmo sem saber de onde surgido aquela tranquilidade toda.
- Lamento imenso tudo isto – dizia a senhora enquanto a ajudava a levantar-se. – O meu nome é Angelique e sou a professora dos alunos do dia. É um prazer conhecer-te Shara.
- Muito praz... espere, como é que sabe o meu nome? – perguntou admirada.
- Nós, os professores, directores e delegados, sabemos sempre quais serão os novos alunos, aqui na escola – explicava a professora alegremente.
- Desculpe mas o “aqui” é onde exactamente?
- Isto é uma dimensão que existe paralelamente à que tu conheceste. Esta dimensão tem algumas semelhanças à da terra, como por exemplo certos locais. Mas aqui não habitam seres humanos.
- Então, isso quer dizer que aqui só existem… demónios? – pergunto a medo.
- Não! Esses são, alguns dos seres aqueles que estão dentro do grupo designados, por seres da noite. Como demónios, vampiros, cerberos, entre outros. Mas também temos os seres do dia como fadas, ninfas, elfos, entre muitos outros que certamente já terás ouvido falar, e que irás conhecer nas aulas.
- Nas aulas? Então este castelo é uma escola?
- Exactamente, aqui é onde nós ensinamos os mais novos a controlarem os seus poderes. Dividindo-os entre as aulas do dia ou da noite conforme as suas capacidades. Tal como tu, que também irás aprender a controlar os teus, juntamente com os outros alunos do dia.
- Poderes? Eu tenho poderes? Mas eu nunca dei por nada. Têm a certeza de que eu sou a pessoa que procuram? Não será a minha irmã gémea pois segundo dizem todos temos uma algures no mundo – disse Shara, confusa com toda aquela informação que estava a obter de uma só rajada.
- Os directores nunca se enganaram antes. E sim, tu és aquela que procuramos, e não a tua irmã gémea que dizes ter algures no mundo. Por acaso nunca percebi porque é que os Terrestres dizem isso… enfim… Como estava a dizer, tu farás parte dos alunos do dia, e começarás depois de amanhã, visto que amanhã…ou daqui a… 8 horas é dia de Natal para alguns e por isso não haverá aulas. Este é o Erik Twist – disse apontando para o rapaz que estava ao lado de Shara. – Ele é o delegado dos alunos do dia, e será teu orientador, até te habituares a tudo isto. Caso tenhas alguma dúvida perguntas-lhe, está bem? – perguntava com uma tranquilidade e alegria espantosa.
- Acho que vou ter muitas - respondeu Shara baixinho e confusa.
- Muito bem, o Erik indicar-te-à o dormitório para poderes descansar e acumular esta informação toda, e vemo-nos amanhã – despediu-se e desapareceu no meio da noite.
Shara ficara completamente estática, enquanto a sua mente dava voltas e mais voltas, tentando acumular tudo aquilo. Beliscou a bochecha com força, mas acabou por se magoar.
- Então, estás bem? – perguntou Erik preocupado e admirado com aquilo.
- Estou – disse esfregando a bochecha – Que giro. Afinal não estou a sonhar!
O rapaz soltou uma pequena gargalhada. Tinha um riso bastante alegre e vivo, ao contrário do louro que vira antes.
- Há muito tempo que não via ninguém beliscar-se para confirmar se estava a sonhar ou não – disse pelo meio dos risos. - Bem, é melhor levar-te ao dormitório. Deves estar de rastos, com tudo isto.
Agora que ele falara nisso, ela realmente sentia os olhos a começarem a pesar, e a mente a deixa de fazer qualquer sentido.
Percorreram o pátio e entraram no corredor, decorado com pilares do estilo Dórico, que ficavam a meio da zona onde deveriam ser as janelas antigamente, que agora não passavam de meros buracos sem vidro. O corredor era largo e comprido, feito em pedra e com chão em mármore, misturando aquilo que foi com aquilo que o castelo é agora.
Quando chegaram ao fim do corredor Erik indicou que a zona à direita era para os alunos da noite, sendo a zona à esquerda para os do dia. Após virarem para a zona do dia e de percorrerem o corredor, decorado com telas de luz, e cheias de cores, que mostravam paisagens espectaculares e mágicas, chegaram à sala de convívio.
A sala era grande e clara, com cortinados azuis-claros a cobrirem as grandes janelas em bico que se situavam nos lados da sala. Possuía mesas e sofás em tons de madeira polida e creme, bem como televisões plasma que situavam à frente dos sofás e de algumas cadeiras.
No fundo da sala havia três torres, uma para as raparigas, situada mais à esquerda, outra para os rapazes, a mais à direita e outra para os delegados, que ficava ao centro, sendo aquela que Erik indicou.
- Porque é que vamos para a tua torre?
- Bem a torre possui dois quartos, Um é meu e o outro é o teu – disse subindo os degraus de pedra que se enrolavam à volta da torre. - Os directores acharam que seria melhor para ti, teres um quarto só teu. Também não sei responder-te o porquê, mas eles lá sabem. Afinal de contas, são os chefes disto tudo.
No final das escadas havia duas portas, uma à esquerda e outra à direita. Ambas pareciam iguais, feitas de madeira com o rebordo pintadas de um castanho mais escuro. Erik abriu a porta da esquerda, dando passagem a Shara para que ela pudesse observar o seu novo quarto.
Era um quarto rectangular grande, com tudo o que era necessário para um estudante. Uma secretária, uma cadeira de escritório, dois pequenos guarda-fatos que ficavam de cada lado da secretária comprida, uma pequena televisão com DVD e uma cama larga, para que pudesse espreguiçar-se à vontade. Bem como uma pequena casa de banho, instalada com chuveiro, um móvel com tudo o que era necessário, desde escova de dentes a champôs, como também um espelho que se situava acima do móvel.
- Uau. De certeza que isto é só para uma pessoa? Comparado com o meu pequeno quarto, isto quase que dava para um batalhão. Ou talvez só meio. Pronto se calhar só para três  – pronunciava, olhado em volta.
Foi aí que sentiu uma onda de tristeza a invadir-lhe a mente. O seu quarto fê-la lembrar os pais, que não via à quase meio-dia, devido ao desmaio e ao tempo perdido naquele sítio.
- O que se passa? – perguntou Erik preocupado, vendo-a a ficar cada vez mais triste.
- Como será que os meus pais se estão a sentir neste momento? Devem estar preocupadíssimos com a minha falta, e a andarem como loucos à minha procura.
Erik manteve-se calado a olhar para ela. Não queria que ela se sentisse triste, mas também não queria esconder-lhe a verdade, pois isso só iria tornar as coisas mais dolorosas.
- Os teus pais não andam à tua procura Shara – disse olhando para o chão e de orelhas caídas, em sinal de tristeza. – Eles não sabem que tu existes, porque a partir do momento que vens para aqui, todos os humanos que conheceste perdem a memória. Ou seja, será como se tu nunca tivesses existido.
- O quê? Co-como assim, é como se eu nu-nunca tivesse existido? – Shara estava  aterrorizada com o que acabara de ouvir.
- Todos os seres humanos que conheceste irão esquecer-te para sempre, a não ser que escolhas viver uma vida de uma Terrena após teres aprendido a controlar os teus poderes. Mas são muito poucos que o conseguem Pois abdicar dos teus poderes é como matares uma parte de ti mesma, e isso é muito difícil.
Erik levantou a cabeça para a ver, e isso só o fez ficar ainda mais triste e preocupado, ao ver as lágrimas que corriam dos olhos de amêndoa da rapariga.
- Mas porquê? Eu não tenho qualquer poder, porque é que tenho de ficar aqui, enquanto todos aqueles que adoro estão a esquecer-me. Isto é um sonho! Não, um pesadelo! Só pode ser um pesadelo - disse Shara cobrindo a cara com as mãos tentando afastar as lágrimas que lhe inundavam os olhos.
- Shara... Shara isto é real e tu tens poderes, tal como todos nós. Simplesmente ainda não os desenvolveste de forma, a que os de fora possam reparar neles - dizia Erik aproximando-se da rapariga. colocou-lhe as mãos nos ombros para a consolar.

- Eu quero sair daqui. Quero ir para casa. Não quero ficar num sítio que obriga aqueles que amo a esquecerem-me, ou com gente que me quer matar.
- Eles não te voltaram a fazer-te mal. Eu prometi-te não foi?! - Erik limpou-lhe algumas lágrimas da cara, num gesto carinhoso. Mas de nada serviu. Elas continuavam a escorrer pela face da rapariga, sem conseguirem parar.
- Eu não entendo porquê. Porque é que as criaturas que eu gosto queriam matar-me. Eu sempre as defendi de todos aqueles que as achava aterrorizadoras. Sempre achei que elas podiam ter um final feliz como todos os outros, porque também eram boas. Mas afinal estava errada, elas são mesmo aterrorizadoras – Shara sentou-se em cima da cama, com os olhos a arder de tanto chorar. O facto de todos os outros perderem a sua memória e de haver criaturas que outrora amara a quererem matá-la, estava a deixá-la muito triste. Erik sentou-se a seu lado recebendo todas as suas lágrimas, deixando que ela usasse o seu ombro como refugio e consolo. Aos poucos ela foi-se acalmando, parando de chorar. Deixando-se cair no cansaço que a vinha perseguindo faz algum tempo, e adormeceu.

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